
O Líbano atravessa uma das mais graves crises humanitárias de sua história recente. A escalada do conflito no Oriente Médio resultou no deslocamento interno de mais de 103 mil pessoas — 70% delas mulheres e crianças —, além de 562 mil pessoas que cruzaram as fronteiras do país em direção à Síria e a outras regiões. Centenas de instalações civis, incluindo escolas, centros de saúde e hospitais, permanecem destruídas ou inutilizáveis. Volker Türk, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, pediu o fim desta situação trágica e destacou as condições de vida severas enfrentadas pelos deslocados, enquanto a situação de refugiados e migrantes — que já viviam em circunstâncias frágeis antes da escalada da violência — continua a se deteriorar.
Diante desse cenário, a organização humanitária Life for Relief and Development intensificou sua atuação no país, onde está presente desde 2006. A instituição, sediada nos Estados Unidos e reconhecida com status consultivo junto às Nações Unidas, opera no Líbano com foco em segurança alimentar, saúde, educação e apoio psicossocial a populações vulneráveis. Para entender a dimensão do trabalho no terreno, conversamos com Mohammad Al-Sharif, coordenador do escritório da Life no Líbano.
Uma crise de proporções históricas
O Líbano testemunhou uma das maiores ondas de deslocamento interno de sua história recente. Segundo Al-Sharif, mais de 50% das crianças com menos de dois anos sofrem de pobreza alimentar aguda, e cerca de 80% das famílias necessitam urgentemente de apoio. O Programa Mundial de Alimentos da ONU confirma que aproximadamente 1,17 milhão de pessoas enfrentam insegurança alimentar severa — com previsão de aumento para 1,24 milhão até outubro de 2025 —, enquanto mais de 2,5 milhões de pessoas têm dificuldades para garantir alimentação adequada.
Campos e abrigos carecem de água potável, saneamento e nutrição básica, aumentando o risco de propagação de doenças. Medicamentos deteriorados, cortes de energia e escassez de combustível agravam ainda mais a situação. O retorno às áreas de origem ocorre lentamente, sobretudo pela destruição de infraestruturas e residências no sul do país e pelo receio da população diante da continuidade das tensões. Serviços de saúde e educação foram fortemente afetados pela enorme pressão sobre as instituições públicas e pela transformação de escolas em centros de acolhimento.
O financiamento humanitário também é insuficiente. O Fundo de População das Nações Unidas solicitou 40 milhões de dólares para atender mulheres e meninas no Líbano em 2025, mas até janeiro apenas cerca de 14% do valor havia sido captado. Dados das Nações Unidas indicam que mais de 1,2 milhão de pessoas foram afetadas direta ou indiretamente pelo conflito, seja pela perda de suas casas ou de seus meios de subsistência.
Resposta emergencial: alimentos, saúde e abrigo
A Life respondeu à crise com uma operação de grande escala. Somente neste período, a organização assistiu 2.400 famílias com kits alimentares prontos, refeições quentes, conjuntos de abrigo emergencial com colchões e cobertores, assistência financeira multifuncional para famílias deslocadas, kits de higiene e dignidade feminina, leite e fraldas para crianças, além de acesso a serviços de saúde móvel.
Durante o Ramadã de 2026, a campanha Khair Wajba distribuiu cestas alimentares completas — com cerca de 20 quilos de itens — para 525 famílias em Tyre, no sul do Líbano, destinadas a deslocados em campos palestinos, e outras 525 famílias em Trípoli e na região de Akkar. A equipe organizou ainda um grande iftar coletivo para 200 famílias e distribuiu refeições quentes para 400 famílias deslocadas. O Ramadã e o Eid foram encerrados com a distribuição do projeto Khair Wajba para 1.222 famílias no norte do Líbano.
No setor de saúde, a Life ofereceu apoio médico integrado a seis hospitais principais no Líbano nos últimos três anos, fornecendo suprimentos médicos completos, equipamentos essenciais, materiais de emergência, equipamentos de salas cirúrgicas e medicamentos vitais. A organização também entregou materiais médicos à associação L'Ecoute NGO, no subúrbio sul de Beirute, à Arcenciel, que atende comunidades mais vulneráveis e marginalizadas na capital, e equipamentos médicos para laboratórios e para o centro Asile Maronite des Vieillards, no Monte Líbano. Além disso, forneceu ambulâncias e suprimentos de emergência em paralelo à execução de programas de apoio a deslocados e refugiados.
Educação, órfãos e apoio psicossocial
Além da resposta emergencial imediata, a Life mantém programas estruturados de longo prazo. O programa de apadrinhamento integrado acompanha cerca de 600 famílias de órfãos — com apoio contínuo especialmente a viúvas, órfãos e deslocados —, com distribuição de auxílios mensais, roupas de festa, refeições, presentes, doces e brinquedos, contribuindo para o apoio psicológico das crianças e de suas famílias. Durante a festa dos órfãos, realizada ao término do Ramadã, esses itens foram distribuídos como parte do cuidado integral oferecido às 532 famílias acompanhadas.
A organização ampliou suas atividades de apoio psicossocial e reabilitação pós-trauma, contando com especialistas experientes no tratamento de sintomas psicológicos para ajudar crianças afetadas a se reintegrar socialmente com seus pares. No campo educacional, a Life atua com projetos de reintegração de alunos do ensino fundamental e preparatório às salas de aula, reabilitação de escolas danificadas e concessão de bolsas universitárias para estudantes merecedores, contribuindo para um futuro melhor para as próximas gerações.
Durante o inverno, programas sazonais garantem a distribuição de roupas pesadas e todos os itens essenciais para famílias vulneráveis nos campos, em resposta ao frio intenso que agrava as condições dos deslocados que vivem em tendas ou edifícios danificados sem isolamento nem aquecimento, tornando-os vulneráveis a doenças e crises de frio, sobretudo crianças e idosos.
Desafios no terreno
O trabalho humanitário enfrenta obstáculos concretos. Em áreas como Trípoli e regiões pobres vizinhas, o acesso a algumas comunidades é dificultado pelas condições de segurança e econômicas. Os custos de transporte e logística são extremamente elevados, especialmente no acompanhamento de órfãos em aldeias distantes.
A queda nas doações privou diversas famílias de auxílios anuais que recebiam regularmente, gerando preocupação entre pessoas que dependem da assistência humanitária, especialmente com a chegada do inverno. Muitas famílias recorrem a medidas extremas de sobrevivência, como reduzir refeições ou enviar crianças ao trabalho. Há também severa escassez de combustível e meios de aquecimento, além de dificuldade para obter alimentos e água potável.
Al-Sharif destaca que a organização realiza pesquisas de campo detalhadas para verificar os casos elegíveis, com visitas presenciais, coleta de informações e, em alguns casos, visitas de acompanhamento para confirmar a veracidade dos dados. Algumas associações cooperam com líderes locais para identificar os necessitados. "Muitos dos nossos recursos vêm de zakat e caridade condicionada, o que exige rigor para garantir que o apoio chegue aos mais necessitados", explica.
Uma presença contínua desde 2006
A trajetória da Life no Líbano atravessa duas décadas de crises consecutivas. Presente desde a guerra de 2006 — quando quase um quarto da população foi deslocado internamente e minas terrestres e bombas de fragmentação se espalharam pelo território —, a organização adaptou sua atuação a cada novo contexto. Com a pandemia de COVID-19 em 2020, forneceu ajuda emergencial às famílias necessitadas nos campos e áreas pobres, incluindo alimentos, medicamentos e suprimentos médicos básicos de proteção. Ao mesmo tempo, a explosão no porto de Beirute — considerada uma das maiores explosões não nucleares da história — causou destruição em larga escala, colapso da infraestrutura, do sistema de saúde e das escolas, além de insegurança alimentar severa, já que o Líbano dependia do porto para importar cerca de 80% de suas mercadorias.
Durante a guerra mais recente, as equipes da Life estiveram presentes nas áreas afetadas e nos agrupamentos de deslocados, distribuindo ajuda financeira, cestas alimentares, refeições quentes, roupas, materiais de inverno, aquecimento e itens de higiene pessoal nos campos de acolhimento. Em cada momento da história do país, a resposta incluiu abrigo emergencial, alimentação, saúde e suporte às populações mais vulneráveis.